Café Piu-Piu em 30 anos.

Lembro de entrar no Café Piu-Piu à tarde com meus 19 anos para uma reunião de produção com o dono da casa. Um homem de cabelos longos, tatuagens, cigarros e cinzeiros espalhados sobre revistas, papéis e latas vazias no fim de um corredor escuro. Confesso que tinha um cheiro diferente aquele lugar, o mesmo que depois eu voltei a reencontrar na festa Gambiarra - cheiro de casa noturna durante o dia, quando a cerveja que caiu no chão à noite seca e gruda. Eu, na época, era jornalista do Jornal da Tarde e produtora de uma banda do meu irmão, que também nestes tempos beirava os 20 e poucos anos e tocava para se divertir. Parece que esse talento para viver várias profissões ao mesmo sempre foi meu tesão. Montei um book de apresentação da banda com minha cara de pau e intuição e fui lá tentar uma pauta. E conseguimos, veja só. Acho que isso foi em meados de 2000, época em que eu já pensava em desistir do jornalismo e viver de arte, e foi um dos primeiros aprendizados de que o velho ditado "o não já temos, vamos tentar o sim" é real e possível de se concretizar. Sempre fui chegada a fazer aquilo que nunca fiz e acho que isso pautou 90% das minhas decisões de vida até o momento, inclusive o de ter uma filha.
Esta semana voltei ao Piu-Piu, agora como produtora do Clapton Maniacs, projeto do cantor e guitarrista Marco Camaro, e também meu companheiro amado, que estou produzindo através da Mulher Telepática - minha agência e produtora que criei há 2 anos, logo depois que saí da Gambiarra. Quem coordena o espaço lá agora é o Paulo, o filho do Luiz, que é extremamente competente e simpático. O lugar, que é um clássico de São Paulo, está lindo, reformado, com equipamentos de som de alta qualidade e um serviço de atendimento maravilhoso. Recomendo muito fazer um programa por lá e descobrir mais a história daquele espaço que já foi um teatro, depois uma oficina, até se tornar uma casa de shows.
Eu entrei esta semana ali com meu corpo flutuando naquele espaço amplo. Era o mesmo lugar, o mesmo palco, a mesma plateia, mas diante da Anna quase 30 anos depois. E pensei em como nossos impulsos corajosos da juventude e cheios de paixão moldam a forma como somos, acreditamos e também os caminhos que escolhemos, às vezes inconscientemente. De alguma forma aquela Anna menina olhou para a produtora de agora com orgulho pelo caminho percorrido. Já com mais conhecimento, mais experiência, menos ansiedade, mais determinada e ainda muito curiosa sobre tudo e todos. Curiosa sobre música, pessoas, projetos e formas de se realizar coisas bonitas no mundo. O show ontem foi uma dessas coisas bonitas que a gente chama de experiência inesquecível. Os músicos dançavam com as mãos nos instrumentos embalando aquelas pessoas que se recusavam a ir embora mesmo já sendo muito tarde pra uma quinta feira. E eu, que ali não estava como atriz no palco, mas como produtora artística, olhando de longe, brindei a possibilidade de ser esse canal que conecta talentos e pessoas desejosas de viver uma noite diferente, especial, ao vivo, longe das telas e dispostas a serem surpreendidas pela arte. Uma noite que dá sentido à Mulher Telepática e sinaliza o caminho aberto pra mim. Obrigada a todos que foram. Obrigada ao sr. Luiz, rockeiro já falecido, que me recebeu com simpatia há 30 anos e me ensinou que basta coragem e movimento para transformar uma ideia em realidade. É assim que vivo aquilo que crio na minha mente e é assim que também estimulo quem anda e cria ao meu redor. As criações só nascem quando chegam nesse mundo e precisamos abrir espaço e dar estrutura para que elas se materializem.
Se você leu até aqui, também vou te contar que parte da renda arrecadada nos shows do projeto "Clapton Maniacs" é revertida para o CrossRoads Centre Antigua, um do maiores centros de recuperação de pessoas viciadas em álcool e drogas do mundo, criado e mantido até hoje pelo Eric Clapton. Ah, e você pode também se tornar um claptonmaniac seguindo a página @clapton.maniacs no insta e acompanhando nossos shows!
E, se você também é uma dessas pessoas curiosas como eu que quer ser surpreendida por experiências culturais presenciais, cadastra seu contato de email aqui no site e segue a Mulher Telepática nas redes sociais ( @mulhertelepatica ) para acompanhar os próximos movimentos intuitivos que faremos por aqui!
Nos vemos em breve!
Abraços telepáticos.
Anna Cecília.
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